quem pode nos salvar? (dica: não é a racionalidade)

Share

Caríssimos e caríssimas, René de Paula Júnior falando aqui no roda e avisa.

Que loucura. O que a gente vê quando a gente olha em volta é uma absoluta e completa irracionalidade. E a gente se pergunta: será que o que falta para o mundo é realmente racionalidade?

Esse é o tema do episódio de hoje e eu tenho aqui na cabeça (estou falando de improviso como sempre falando do coração) alguns pensadores como Steven pinker como a Julia galef que estão tentando trazer algumas racionalidade, tentando mostrar as vantagens do pensamento racional tentando chamar atenção para o valor da ciência, mas eu me pergunto se realmente racionalidade é o que está faltando porque quando a gente vê o que acabou de acontecer agora numa instituição perfeitamente organizada com a Prevent Senior onde racionalidade inclui a ideia de que “óbito é alta”, de que você poderia fazer experimentos “racionais” com pacientes que não estavam nem aí ou quando eu me lembro de outras “racionalidades” que não deram certo, por exemplo o chumbo na atmosfera que causou tanto mal que finalmente agora a gente está se livrando, uma decisão bastante racional do Thomas Midgley 100 anos atrás para um problema bastante comum na época que era… motores batendo pino.
“Vamos colocar chumbo na gasolina!”
O que acontece? Isso poluiu a atmosfera e comprometeu o mundo inteiro. E aí vem uma outra decisão “raciona” que quando se conhece fica claro que os efeitos nefastos ele “racionalmente”, talvez pensando na “racionalidade” dos negócios resolveu ocultar os resultados… Esse mesmo personagem também criou uma maneira de você “racionalizar” a geladeira e refrigeração e criou os gases CFC, o que abriu um buraco na camada de ozônio e outras “racionalidades”.
Tem alguma coisa mais “racional” do que um campo de concentração perfeitamente organizado com a morte em massa por um gás desenvolvido científicamente, que fornalhas desenvolvidas por bons Engenheiro? Provavelmente as pessoas estavam sentindo “Racionais” na época, então é qual racionalidade a gente vai escolhe?

Será que a gente pode dizer que está faltando quem sabe um pouco aí de, não sei, o oposto da racionalidade? A gente pode pensar, talvez, no pensamento religioso, mas as religiões também, por mais bem intencionados que sejam, também provocaram cruzadas, jihads, a gente tem monges budistas apoiando o genocídio de muçulmanos em Myanmar…

Alguém me mostra aí alguma vertente Mística que não tenha de alguma maneira contribuído para algum tipo de massacre. E aí vem pra mim uma questão que para mim tá ficando cada vez mais clara que é um dos pressupostos da racionalidade é achar que nós todos somos indivíduos perfeitamente racionais, que ponderam benefícios os custos e tomam decisões que nos beneficiam…

A gente pode se enganar… existem aí todas as palestras e livros de Dan Ariely (Previsivelmente irracionais) mas acho que o grande equívoco a meu ver quando a gente começa a olhar a evolução da nossa espécie é considerar que nós somos “indivíduos”.

Nós somos uma espécie grupal, somos uma espécie social com tudo que isso ocasiona desde coisas positivas como a empatia, compaixão, senso de justiça regra de convivência até coisas um pouco nefastas como a gente aprender a cooperar mas de uma maneira não tão, digamos, nobre assim: cooperar numa guerra, cooperar na máfia, cooperar no PCC, cooperar contra um outro, cooperar em genocídios.

A questão é: sim vamos partir desse pressuposto nós somos criaturas sociais e isso explica muita coisa, isso explica a nossa busca por status, isso explica também a nossa busca por pertencimento ao grupo e eu acho que muitas vezes quando a gente acha que alguém está irracionalmente defendendo alguma coisa indefensável na verdade a questão nem é tanto uma questão racional, é uma questão de pertencer a um grupo versus algum outro grupo: eu quero concordar com todo mundo que se opõe à esquerda, aos fascistas, aos petralhas, aos crentes aos hereges tanto faz.
O pertencimento muitas vezes faz com que a gente passe por cima de uma coisa que eu acho que essa sim é… de alguma maneira a gente tem que aprender a incorporar.

O risco maior para mim é quando em nome da “racionalidade” ou da irracionalidade a gente consegue uma coisa que infelizmente para a nossa espécie é muito fácil, que é considerar o outro não humano, que é considerar o outro um número no Excel, considerar o outro uma ponderação no seu cálculo do bônus, quando você desumaniza o outro, é muito fácil de fazer isso.

Acabou de acontecer na Prevent Senior, isso acontece agora nesse governo, no nazismo, no stalinismo, isso aconteceu que em todas as grandes tragédias da humanidade.

A nossa capacidade estranhissima, profundamente… (estranha não, porque a gente consegue entender do ponto de vista evolutivo) empobrecedora de encarar o outro, aquele que é diferente, seja pela cor da pele, seja pelo sotaque, seja pela crença, pelo comportamento, considerar “outro”, considerar indigno, considerar como uma “não pessoa”, considerar como alguém não humano.

Como que a gente faz para evitar isso? Vão ser políticas identitárias? Vão ser ideologias do século passado? Vão ser… não sei, eu acho que o que eu vejo hoje já é um pouco cansado um pouco gasto e o que aparentemente torna as pessoas mais tolerantes ou mais inclusivas mais capazes de conviver com o outro é justamente o convívio, é ter tido a oportunidade de crescer num ambiente mais diverso, de crescer num ambiente menos tribal, de ter oportunidade de convívio perfeitamente pacífico com o diferente.

E aí a gente consegue desarmar um pouco essa bomba que é uma bomba instintiva, é uma bomba muito profunda de considerar que o outro não é nem racional, ele é simplesmente um zero à esquerda.

Gerações mais novas, por favor, contamos com vocês para que a gente consiga escapar dessas armadilhas que a gente consegue entender do ponto de vista evolutivo, mas se a gente pensar não só em evolução mas em Progresso e por Progresso eu quero dizer Progresso da dignidade, não no progresso necessariamente tecnológico, a gente vai perceber que o progresso da dignidade humana acontece quando a gente consegue expandir os nossos círculos e a gente consegue incluir cada vez mais a diferença naquilo que a gente considera como fazendo parte dessa Grande Aventura Humana.

Não é fácil, tudo está jogando contra: a popularização das redes sociais, os algoritmos, as ideologias, os gabinetes do ódio estão justamente tentando fazer a gente voltar para uma zona de conforto que é uma zona de conforto tóxica, que é aquela que considera qualquer motivo de diferença para excluir, para eliminar, para desconsiderar.

Geração mais nova por favor nos salve… eu tenho esperança em vocês.

A diferença, a colaboração com o que é diferente, a criação de regras de convívio que sejam inclusivas para mim é a única chave e talvez não seja uma chave só, sejam inúmeras chaves e que floresçam inúmeras maneiras da gente resolver ou sair desse dilema tão arcaico.

Muito obrigado é até o próximo episódio daqui do rosa e avisa um abraço.

versão em áudio:

Play
Share
1 2 3 51
Share
Share